por Helle Heckmann

Como pais de crianças pequenas, você está constantemente muito cansado e sempre dorme pouco, e quando você dorme muito pouco, tem muito pouca energia e então, muitas vezes você cede, quando, na verdade, acha que não deveria ter cedido. Ou fica com raiva ou irritado, e dessa forma não fica presente, e quando você não está presente você “perde” seu filho e assim você não se gosta…

Para tornar mais fácil lidar com a vida cotidiana com seus filhos, existem três considerações importantes:

Ser flexível

Estabelecer limites (fronteiras)

Observar a mesma rotina todos os dias

Tornar-se flexível é o resultado de uma observação interior objetiva. Você pode treinar sua flexibilidade através de um trabalho interno no qual você aprende sobre si mesmo.

Em relação aos limites, você tem que descobri-los por si mesmo. Você deve decidir quais são os limites para o seu filho em sua casa: o horário de ir para cama, o horário de comer, o que comer, qual a linguagem a ser usada em família e assim por diante. Você tem que ter estabelecido a sua opinião sobre os limites previamente. Assim, em vez de dizer “não, não, não …” e ficar irritado, você simplesmente não permite que as crianças ultrapassem os limites. Você sabe que essa é uma decisão sua e não precisa mais ficar irritado. Se você está à frente da criança e percebe aquela certa situação se aproximando, com humor e o gesto ou a palavra corretos, você pode afastar a situação. Isso será possível se você exercitar sua flexibilidade. Conhecer-se melhor lhe dará a possibilidade de também estar à frente de você mesmo. Quando você apreende essa ferramenta, você pode começar a lidar com seus filhos de uma forma muito mais livre porque os limites já estão estabelecidos.

A terceira recomendação, a de fazer uma rotina que seja a mesma todo dia, garante a criança ritmo. Todas as famílias Waldorf, provavelmente, conhecem a vida cotidiana no Jardim da Infância. As crianças passam o dia em períodos alternados de concentração e expansão, como no ritmo da respiração, onde há o inalar e o exalar. Na fase de inalação ou inspiração, a criança direciona sua atenção para uma atividade que basicamente a relaciona a ela mesma. Para as crianças pequenas, cada período de inspiração (desenho, aquarela, tricô, comer…) é muito curto, porque os pequenos podem concentrar-se apenas por curtos períodos de tempo. No período de exalação ou expiração, a criança se refere principalmente ao mundo ao seu redor (brincar livre, correr livremente, etc.). Para cada período de inspiração a criança precisa de um período de expiração e assim um padrão é estabelecido. Esse ritmo é algo que você pode trazer para dentro da sua casa. Você tem que tentar descobrir quando as crianças “inspiram” e quando elas “expiram”. E quando a criança está no período de inspiração, você tem q ter certeza que estará presente, de maneira que a criança sinta “Ahhh, aqui eu sinto meus pais, eles estão lá por mim!”.

Depois disso, por bem pouco tempo, você pode fazer o que tem que fazer em casa e você pode dizer para criança “Você tem que esperar porque eu preciso fazer isso”. E será tudo bem porque você sabe que esteve presente com a criança. Por exemplo, observe a situação quando os pais pegam seus filhos no Jardim. No exato momento que você está pegando seu filho: O celular toca e você atende? Você cumprimenta seus amigos e inicia uma conversa intensa? Se a resposta for sim, então você não está presente com a criança.

Na minha última visita ao México, vi muito poucos pais saudando seus filhos, a maioria estava conversando com outros pais ou envolvidos em assuntos da escola ou falando em seus celulares, ou chegando atrasados, ou com muita pressa.

Mas, para seu filho que esteve fora há cinco horas e realmente quer você… Você não está lá. Então a criança grita: “Quero sorvete! Quero isso! Quero aquilo!” ou então ela começa a correr ou a cair ou a se meter em pequenas encrencas porque ela está confusa, pois na verdade ela te viu, mas não te encontrou. Do contrário, se você tomar o tempo (e isso talvez leve 5 segundos) de se abaixar, dar-lhe um abraço e então cheirá-lo (tão lindo! Tão querido!) e assim realmente ESTAR lá, seus olhinhos lhe dirão, muito mais do que palavras, como foi o seu dia. Ele não pode contar-lhe com palavras, pois não se lembra, mas seus olhos lhe contarão tudo. Então, você o toma pela mão e andam juntos (num passo que a criança possa acompanhar, é claro!), e isso é realmente amável pois assim você está criando um belo momento, um “momento você e eu”. Agora, se você precisa cumprimentar as pessoas, você já pode, rapidamente, mas sempre junto com a criança porque ela sentirá “Eu estou onde pertenço, junto com minha mãe/ pai”. Esse foi um momento de inspiração- momento para dentro (a breathing-in situation) onde você esteve

de fato presente. Daí vocês vão até o carro e vão para casa (expiração – momento para fora) e provavelmente é hora de comer, surgindo novamente outro momento de inspiração – para dentro.

Como vocês comem?

Você se senta junto com a criança?

Ou a criança se senta sozinha para comer enquanto você fica por perto e aproveita para falar ao telefone?

Se você se dá o tempo de sentar com seu filho, você o ensinará boas maneiras a mesa através do seu exemplo. Muitas crianças hoje não se sentam a mesa com seus pais e assim não aprendem a manejar os talheres e utensílios adequadamente. No entanto, isso é muito importante, pois do contrário, quando eles completam sete anos, não conseguem segurar adequadamente o lápis. E aprender isso aos sete anos é bem mais difícil comparado entre um e dois anos. Além disso, sentar-se a mesa e ter um começo, o processo e um fim é importante pois é assim que você deve viver a sua vida inteira. Tudo tem um começo, um processo e um fim. Isso pode tomar-lhe apenas 15 minutos, para sentar-se apropriadamente, checar como a criança segura os talheres e o copo (crianças de um ano em diante não precisam de copos especiais de bebes, aqueles com bico e tampa), comer com a boca fechada e tudo o mais, sendo você, dessa forma, um exemplo a ser seguido para seu filho e ainda mais importante, você tomou esse breve momento para novamente criar outro “momento você e eu” ao mesmo tempo em que você ajuda seu filho a conhecer uma forma social de “como nós somos quando comemos juntos”. Ao terminar a refeição, você o lembra de que ele precisa ajudar com a mesa, de maneira que ele também aprenda que quando somos parte de uma comunidade (ambiente social), também participamos da limpeza. Dessa maneira você fez e criou uma situação na qual esteve realmente presente e então pode dizer para a criança “Vá brincar” (momento de expiração – para fora), pois você esteve presente anteriormente e então pode fazer o que precisa fazer, mas precisa estar visível para a criança. Assim é, porque a criança pequena não pode brincar sozinha se o centro não está lá e você é a pessoa mais importante para a criança. Você é o centro e se você sai do ambiente, a criança a seguirá. Quando você está fazendo as suas coisas, pode acontecer da criança dizer “Estou entediado”. Nesse caso, é claro, não ligue a TV nem coloque música. Quando você está ocupada com outras coisas, você pode dizer para a criança “Agora você pode brincar sozinho”. Se você sabe que esteve de fato presente, você pode esperar de verdade que eles encontrem algo para fazer por eles mesmos. É muito importante que você não tenha medo de que suas crianças não saibam o que fazer ou que estejam entediadas. É muito importante que você sinta realmente “Estive com eles e agora podem ficar com eles mesmos”.

Atualmente, os pais frequentemente usam a mídia ou atividades direcionadas por adultos para entreter seus filhos, porque eles têm medo de que suas crianças fiquem entediadas, assumindo que elas não são capazes de fazer nada por si mesmas. Essa é uma situação complicada. Se você acha que tem que entreter seu filho menor de sete anos o tempo todo com mídia (filmes, TV, videogames, computadores, etc.), aulas extracurriculares e/ ou outras atividades guiadas por adultos, então eles não aprenderão como brincar sozinhos. Eles não terão um momento no qual possam estar num estado de não saber o que fazer e daí partir para um estado de encontrar imagens interiores e assim criar coisas de dentro para fora. Deixando-os entediados, você os ajuda, porque esse momento representa a oportunidade que as crianças têm de mergulhar no processo de criatividade interior. O fato de que as crianças são capazes de ficarem por sua própria conta, para criar suas próprias brincadeiras sem a direção de um adulto é de extrema importância, porque durante os sete primeiros anos da criança tudo se relaciona com o fato de ser capaz de criar. Se todas as atividades vêm do lado de fora (telas eletrônicas, videogames, direcionamento de adultos, etc.), então não acontece muita coisa na esfera da criação interior. É por isso que nos Jardins Waldorf, as professoras não se sentam para brincar com as crianças, ao invés disso, elas fazem trabalho de verdade, do qual as crianças retiraram inspiração para suas próprias brincadeiras. Nesses Jardins da Infância, você poderá encontrar professoras varrendo, cozinhando, costurando, podando o canteiro, cuidando de animais da fazenda, cortando lenha e o que mais o ambiente de cada escola permitir. Igualmente, vocês, como pais, no momento de expiração – para fora, devem fazer seu trabalho e a criança ao seu lado deveria ser capaz de fazer o dela (que é brincar). Isso só é possível se a criança sente que ela esteve com você num momento anterior de inspiração – momento para dentro.

É o mesmo quando as crianças vão para cama. O que a criança ama ouvir são histórias da sua própria vida. Nenhum livro, rádio, música, filme ou desenho animado pode causar o impacto na criança que você pode. E encontrar sua própria história para contar tem muito significado e além disso, é uma ferramenta com a qual você pode mudar várias situações que estão emperradas. É muito difícil para a criança se apartar de você se ela não sentiu sua presença realmente. Mas, se você abraçou sua criança, soprou um pouquinho sua orelhinha, contou-lhe uma história do seu coração… Você esteve presente de verdade, então você pode beijá-la e colocá-la na cama e sentir “Eu posso deixá-la porque estive realmente presente”. Daí você pode esperar que sua criança seja capaz de dormir sozinha, e isso é saudável para ela.

Do lugar de onde eu vim, a Dinamarca, muitos pais estão numa situação onde eles têm que deitar e segurar as mãos da criança, ler 20 historias, cantar 50 canções e tudo isso leva uma hora, uma hora e meia e quando finalmente eles estão saindo do quarto silenciosamente, eles ouvem “Maaaa, água! Mamaaaae!”. E claro, ficam irritados. Você pode evitar isso colocando limites e encontrando um jeito confortável de sair porque esteve presente em diversas situações durante o dia. Do contrário, a criança não foi preenchida suficientemente com seu amor e, além disso, se não lhe foram dadas oportunidades de criar sua própria brincadeira, de trabalhar de dentro para fora, você não pode esperar que ela seja capaz de pegar no sono e dormir por ela mesma.

Gostaria de chamar atenção para outro aspecto do período “depois da escola” no qual você está com seus filhos. Se você leva seus filhos da escola para outras aulas ou confia- os às diversas variações da mídia, você passa menos tempo com eles. Crianças são pequenas por um período muito curto. Agora você pode achar que é ainda muito tempo pela frente, mas em apenas um momento você perceberá como passou rápido.

Deixando seu filho se envolver com sua própria brincadeira enquanto você está por perto fazendo suas próprias tarefas e estando realmente presente nas situações de inspiração – situações para dentro, você constrói a genuína confiança entre você e seu filho. Essa confiança será importante quando eles crescerem um pouco e chegarem à pré-puberdade e na puberdade propriamente dita, porque ai eles virão até você quando tiverem problemas e te ouvirão quando você disser o que fazer e o que não fazer. Mas eles apenas farão esse movimento se confiarem em você, se você esteve presente com eles anteriormente. E é por isso que os sete primeiros anos de vida da criança são tão importantes. Toda a confiança interna da criança, sua crença em que o mundo é bom, são a base de sua vida futura.

Depois dos sete primeiros anos, são os amigos que se tornam o foco. Os amigos que a criança escolhe tem muito a ver com a moralidade demonstrada a ela por você e construída através dos primeiros sete anos. Além disso, se a ela foi dada a oportunidade de trabalhar internamente, ela conhecerá ela mesma e será capaz de dizer “não” quando encontrar alguma coisa da qual não goste e “sim” para o que de fato quer. Você pode escolher quando conhece a si mesmo e um ser humano que é capaz de escolher tem uma autoestima saudável. Nesse contexto, é importante como o Jardim da Infância e o lar da criança se relacionam: deve existir uma ponte de um mundo para o outro. De certa forma, é um pouco difícil para as famílias que escolhem a educação Waldorf para seus filhos tornarem-se diferentes do tradicional, mas essa é sua escolha. Você não pode realizar as duas opções. Uma vez que você tomou a estrada da consciência, você está consciente sobre alimentação, sobre educação e tudo o mais. Fazer a ponte entre o Jardim Waldorf e a sua casa é obviamente importante, pois a criança pode perceber que tudo se encaixa e faz sentido. Por isso é incrivelmente importante construir confiança entre o Jardim e a família, através da qual a professora do Jardim seja capaz de apoiar essa escolha da família, mas também para a família respeitar o que é trazido no Jardim, de maneira que uma coisa sem a outra não é nada. Então, vocês precisam encontrar o caminho juntos.

Eu tenho três filhos com 29, 26 e 23 e agora eu posso colher 25 anos de trabalho duro e dedicado com meus filhos. É tão fantástico porque posso ver como eles são capazes de ir para vida com liberdade. E eu também posso me mover ao redor do mundo, com liberdade e sabedoria porque eles não precisam mais de mim, mas gostam de mim e também de estar com os amigos deles. E isso é, eu acho, a maior coisa que desejamos como pais, que quando nossos filhos forem adultos, de verdade e pela sua livre escola, escolham estar conosco em certos momentos. Podemos encontrar, junto com nossos filhos, um novo jeito de construir relações sociais porque temos outra consciência através da qual podemos conhecer melhor nossos filhos.

Fonte: http://www.waldorftoday.com/

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