Patrícia Gimael e Selma Aguiar
Infância Vivenciada
Ed. Paulinas, 2013
pp 37-39

O ambiente interno
Um ambiente saudável é muito importante para a criança pequena justamente por ela estar no âmbito da vontade. A vontade, sendo uma força inconsciente, traz a característica de permitir que essa criança tenha uma fusão com o ambiente e com as pessoas que a cercam. Ela está “entregue” totalmente ao ambiente.
O aprendizado se dá, de forma inconsciente, através da imitação. Isso significa que a criança imita os adultos e o faz da forma mais profunda que se possa imaginar, captando cada nuance de seus gestos, seu tom de voz, e mais, sua forma de ver e atuar no mundo, sua moral e o próprio interesse que esse adulto tem por ela.
A criança apreende a essência das coisas, logo, não é adequado o educador enfeitar a sala com flores artificiais, sendo que ela percebe a vida que anima as flores; ou colocar músicas eletrônicas, se ela não capta nelas a qualidade vital de quem canta ou toca os instrumentos; ou, ainda, oferecer um videogame, que oferece imagens que se movimentam muito na tela ou traz muita informação, deixando essa criança agitada em razão de ela não ter ainda desenvolvido recursos para digerir essas informações.
Enfim, coisas que não são vivas ou reais e que não lhe oferecem nenhuma qualidade ou até prejudicam seu desenvolvimento.
A criança quer e precisa ter vivências reais e saudáveis.
Outro aspecto importante é a entrada de sol no ambiente. As cores, conseguidas através de pátinas suaves nas paredes, podem vivificar o ambiente; além disso, tecidos coloridos usados adequadamente podem estimular sua vivência.
A madeira é também um elemento da natureza que tem peso, desenho e tonalidades próprias, trazendo uma qualidade especial quando usada em brinquedos, móveis, piso.
O chão de madeira evita as “friagens”, o que não acontece com os pisos frios, que impossibilitam que a criança use uma pantufa ou fique descalça brincando livremente.
O uso de quadros na parede, que possam trazer imagens que representem a beleza, que seja harmonioso e que estimule o senso estético, também é recomendável. 

Claro e escuro
Quando anoitece, a criança deve ter a percepção da mudança de claridade. Tudo se lhe apresenta de forma diferente, conforme a claridade vai diminuindo: as cores vão perdendo a intensidade e os objetos mostram sua sombra. Tudo ganha, então, um quê de mistério.
Abajur ou velas podem substituir as lâmpadas e tornar o ambiente mais aconchegante (caso não haja a necessidade de uma luz forte).
Mudanças fazem parte dos ritmos vivenciados pela criança, e isso é muito importante para ela.

O ambiente externo
Caso o ambiente externo seja muito vazio, a criança terá pouco estímulo. Se o piso for frio, ela não poderá nem mesmo tirar os sapatos e sentir a irregularidade do chão (pedrinhas, elevações etc.) e massagear seus pezinhos. Ao mesmo tempo em que um grosso solado de sapato a fará sentir-se muito “separada” e insensível ao chão. A criança precisa “tatear o mundo” com os pés.
Quanta é a alegria da criança ao se aproximar de um ambiente que seja como um pequeno “bosque”: terra, árvores para se dependurar. E, além do mais, essas árvores atraem passarinhos, que gostam de cantar. Elas também geram sombras. E como é bom brincar de casinha num dia quente à sombra de uma árvore.
Troncos caídos, balanços nas árvores, cordas penduradas, tanque de areia com colheres de pau, carrinhos de madeira para puxar, baldinhos com água e, claro, os amiguinhos. Tudo isso criará um grande problema: as crianças chegarão em casa absolutamente sujas. Ufa! É só isso? Acho que nós adultos podemos lidar com esse probleminha, pois perceberemos que estarão sujas, mas felizes. Além do que, estarão sendo legitimamente crianças.
Os educadores devem conscientizar os pais da necessidade do brincar livre e de como lidar com a questão da sujeira.
Pular corda, correr, saltar, brincar no tanque de areia, andar sobre troncos, se dependurar na balança.  Isto é ser criança de verdade.

O ambiente sonoro
Quando o bebê vive em um ambiente silencioso, ele pode escutar com mais acuidade (perfeição) os sons emitidos.
A voz humana possui melodia e tonalidade, e a criança capta essas nuances antes mesmo de entender o que está sendo dito. Há vozes que expressam aspereza, clareza, tranquilidade; manifestando diferentes formas de emoções e sentimentos.
O som do latido do cachorro, do farfalhar das folhas das árvores, o cantar da mãe envolvem o bebê num ouvir ativo, desenvolvendo sua acuidade auditiva.
Existem ruídos mecânicos que são evasivos, desnecessários e que estressam a criança, e dos quais ela não se pode libertar sem a interferência de um adulto. Esses sons podem embotar a audição. Nossa vida na atualidade está cheia desses ruídos e barulhos.
Muitas vezes vemos um bebê ou criança pequena dormindo “tranquilamente” em ambientes muito barulhentos ou na sala, com a televisão ligada. Esse dormir pode significar uma defesa, uma proteção contra tantos estímulos.

O AMBIENTE ONDE VIVE A CRIANÇA