“Sobre o silêncio apagado de luzes,
a noite lentamente estende o escuro manto;
e lá debaixo dele, longe
dos olhos curiosos dos homens,
ela prepara o próximo e veemente
borbulhar de águas,
irromper de plantas,
despertar de almas.
E, quando ela se vai
com um leve gesto erguendo a sombra, desvendando a vida,
o dia, ainda trêmulo, escapa no horizonte,
e surge o sol,
surge o sol aclarante, inundante!
E na ordem do tempo se revela
a eterna luz
a eterna florescência!”

Ruth Salles

 

O findar de um dia e o início de outro nos ensinam a importância do morrer e renascer todos os dias. De deixar morrer aquilo que é velho e já não nos cabe mais e renascer o novo e revigorante. Estamos entrando na época do outono, as árvores já começam a perder suas folhas e amadurecer seus frutos para então espalharem suas sementes, o potencial de vida. A Páscoa é a comemoração da vida acima da morte, da ressurreição de Cristo.

Neste dia, vivenciamos o nascimento do germe do nosso eu. Dois mil anos atrás, com a ressurreição do Cristo, nosso eu nasceu em forma de semente, com um potencial enorme de crescimento. Cabe a cada um de nós olhar para o planeta Terra e fecundá-lo com a melhor qualidade de nossas ideias e ações. Nessa época, podemos criar força para possibilitar a vida, a morte e a ressurreição de hábitos, atitudes e modos de pensar. Para, assim, nos tornarmos pessoas melhores e menos endurecidas diante da nossa realidade atual.

Essa celebração está repleta de símbolos que usamos com as crianças para resgatar o significado real da época.

Os ovos, muito comuns na época da Páscoa, simbolizam o grande potencial da vida em si, uma vida em estado germinal. Com as crianças, pintamos ovos vazios para enfeitar os ambientes, plantamos dentro das cascas de ovos e buscamos os ovos de chocolate no jardim.

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A Páscoa é um momento de busca pelo novo (assim, também é um momento de deixarmos morrer aquilo que não nos serve mais). Quando buscamos os ovos no jardim, estamos também buscando o potencial de renovação e, quando uma criança exclama “encontrei!”, torcemos para que ela encontre também felicidade, alegria e verdade no mundo.

O coelho é o símbolo da pureza que carrega as vidas em potencial (os ovos da páscoa). É preciso que haja substância virgem no mundo para podermos receber as ideias do mundo celestial.

Outra simbologia que é muito verdadeira na época em que estamos é a da metamorfose das lagartas, que começam a aparecer nessa época. Elas comem muitas folhas, pois se preparam para sua grande transformação. No jardim de infância, vivenciamos bastante esse ritmo das lagartas na nossa roda rítmica, com brincadeira de dedinhos, músicas, observando-as na natureza e até em nosso cantinho de época. As lagartas se recolhem em seu casulo em grande silêncio e escuridão, para que possam então se transformar em lindas, leves e coloridas borboletas.

É momento de renovação. Momento de olhar para dentro, transformar sentimentos e hábitos.

Texto escrito por Leonora Campidelli Ghirello

Profª auxiliar do Jardim das Amoras

Vivenciando a Páscoa