A hora do lanche é o momento central do nosso dia! Essa atividade é elaborada a partir de uma série de critérios e objetivos. Através do lanche, trabalhamos habilidades motoras, organização espacial e temporal, noções de grandezas matemáticas, linguagem, oralidade, gratidão pelo alimento (também por quem o trouxe e o preparou), afetividade, o cultivo de bons hábitos e da vontade, a convivência social, a cooperação, o servir ao outro, e claro, uma nutrição saudável e que atenda ao tripé proposto pela antroposofia: nutrir com equilíbrio o sistema neuro-sensorial,  o sistema rítmico  e o sistema metabólico-motor.  Tais sistemas são responsáveis por respaldar e fomentar as tão importantes faculdades humanas: o pensar, o sentir e o querer.

A consistência dos alimentos oferecidos são de suma importância para a educação  da  vontade (querer).  Não estamos nos referindo ao impulso momentâneo de querer algo para si, mas sim da força interior que temos para realizar e executar algo, da força que origina nossa ação no mundo. Ao mastigar, a criança se encontra ativa. Por isso nos atentamos em oferecer alimentos que estimulem uma mastigação consistente (cenouras cruas, granolas, coco seco, espiga de milho, etc). Esse estímulo também contribui para o fortalecimento e tonicidade do maxilar, promovendo  uma linguagem corretamente articulada.

Rudolf Steiner estuda e descreve, com profundidade, sobre qualidades e características  de diversos  grupos alimentares. Observaremos algumas delas nos alimentos que compõe a base de nosso cardápio: os vegetais (frutas, folhas, flores, raizes), os cereais integrais, ovos, laticínios. Embora usemos com bastante parcimônia, falaremos também sobre o sal e o açúcar.

Vegetais
Pensemos em uma planta como um ser humano de ponta cabeça, em que as raízes estão relacionadas ao âmbito do pensar (neuro sensorial); caule e folhas ao âmbito do sentir (meio, coração e pulmões); flores e frutos ao âmbito do querer (metabólico-motor).

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Sobre a atuação das plantes nesse tripé da organização humana, Steiner diz o seguinte:

“O calmo enraizamento no solo frio, o crescimento refreado e o fluxo alimentar mineralizante, apontam para uma relação entre a área das raízes e o sistema cefálico do homem.  Na expansão e contração rítmica na parte mediana da planta, no caule e folha, na pulsação viva do fluxo da seiva e na atuação da cor e do ar, temos algo análogo aos ritmos do sangue e da respiração, no organismo humano Pode-se por em evidência a relação entre os membros e o metabolismo no homem, comparando em relação à região da flor e do fruto,. na planta. Os dois têm em comum a vida dentro da luz e do calor, a influência que recebem do meio ambiente, assim como a atuação que têm dentro do mesmo.
A descoberta de que a planta é “um homem invertido” surpreende e dá lugar a um certo entusiasmo…!”

Cereais
O cereal ajuda o ser humano a erguer-se e adquirir a posição vertical. É ele o principal componente de nossa alimentação; tanto que o pão (trigo, centeio) se tornou o alimento mais importante da civilização ocidental, o arroz, da oriental, o milho para os povos andinos, e assim por diante.  A essência da alimentação é a ativação do organismo, e são, sobretudo os cereais, que atendem a essa necessidade: os dentes são ativados na mastigação; o peristaltismo do estômago e do intestinos são ativados pelas películas dos cereais, que contém vitaminas, proteínas, sais e semi-celulose.

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Steiner destaca os sete cereais integrais (arroz, cevada, painço, centeio, aveia, milho, trigo)  como sendo muito importantes para a alimentação humana. Assim como as plantas,  cada parte do cereal é responsável por nutrir um âmbito específico no homem:

“A silícea contida em sua raiz impregna todo cereal dando-lhe força de verticalização e de resistência, e possibilitando o cereal captar as forças da luz. Essa qualidade do cereal serve de intenso estímulo ao sistema nervoso central e aos órgãos dos sentidos.”

Segundo R.Steiner, os órgãos internos têm uma percepção mútua (que não vem à tona de nossa consciência) e é a silícea que regula essa percepção. Também a nossa pele, o órgão perceptivo que forma o limite do nosso corpo, é estimulada pela silícea.

No sistema rítmico, os cereais desempenham um papel importante, fortificando o coração e o pulmão. O magnésio encontrado na película atua sobre o coração organizando os ritmos cardíacos. Também o ferro encontrado no grão em abundância é importante para o sangue e para a oxigenação.

Todo metabolismo é incentivado pelos grãos de cereais. Sua alta taxa de hidrato de carbono é transformada em amido e glicose. No sistema metabólico-motor os açúcares são muito necessários para fortalecer os músculos. A queima do açúcar produz o calor necessário para o trabalho muscular.

Ovos e Leite
O ovo é uma das mais potentes fontes de proteínas, gorduras e ferro. Porém, qualitativamente, ele contém potente capacidade germinativa de formar um novo ser, portanto é um alimento altamente energético que atua no emocional e na sexualidade do ser humano. Em excesso, pode deixar a criança inquieta. Por isso, utilizamos em pequenas quantidades, em algumas receitas.  O leite de vaca e seus derivados constituem um alimento global para organismo da criança,  e possuem um papel fundamental e insubstituível na formação do sistema neuro-sensorial.

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Sal
O sal é o maior representante do reino mineral na nossa alimentação. Trata-se de um cristal, um elemento ligado às forças de mineralização da Terra.  Segundo a antroposofia, sua atuação no organismo humano se relaciona com as forças de encarnação e de desenvolvimento da consciência.

Quando estamos diante de uma criança onde o sistema neuro-sensorial precisa ser estimulado, o uso do sal poderá ser indicado como medida terapêutica. A sua atuação fortalece as forças do Pensar fazendo com que a individualidade se ligue mais profundamente ao mundo terreno.

Açúcar
Provém do reino vegetal e é uma reserva de energia para o homem, que pode utilizá-lo sem ter de efetuar um trabalho digestivo, o que acontece quando o ingerimos em sua forma industrializada e refinada. Neste ponto, trata-se de uma substância que não estimula a atividade vital dos órgãos como os vegetais frescos, mas substitui, no organismo, uma substância que este é capaz de produzir por si em quantidades suficientes quando goza de plena saúde.

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As qualidades do ácido, do salgado e do amargo possuem todas elas uma característica mais agressiva, estimulante. O doce, ao contrário, consola, reconforta, envolve, tranquiliza e dá apoio: também fortalece nossa auto-percepção de modo imediato, e faz com que nos sintamos mais fortes e dispostos em nosso corpo. Esse efeito provoca a tendência à freqüente repetição da ingestão de açúcar. Sentimos o prazer do acréscimo momentâneo de força, sem perceber a instalação do mau hábito, a perda energética que se segue e que tentamos compensar novamente com uma quantidade maior de açúcar.

O ideal é que o organismo seja incentivado a elaborar o açúcar de que necessita através da ingestão de vegetais e cereais. A vontade de comer doce deveria ser suprida, sempre que possível, pela ingestão de frutas (secas e naturais).
Quando estamos diante de uma criança onde o sistema metabólico-motor precisa ser estimulado, o uso do açucar (natural ou de frutas frescas/secas) poderá ser indicado como medida terapêutica. A sua composição altamente energética estimula o funcionamento do metabolismo e fortalece o Querer trazendo vitalidade para o organismo da criança.

Além de procurarmos consumir todas as partes da planta ( frutas, folhas, flores, raízes), os cereais integrais, ovos e laticínios, é preciso lembrar de que não é só isso que nos nutre:

“O ser humano nutre-se de percepções sensoriais, ideias, sentimentos, beleza, ar e alimentos. Os alimentos são parte do que o ser humano precisa ingerir para viver. Na hora de comer não é só o alimento o que nutre, mas também a companhia, o ambiente, o cheiro, o sabor e a afetividade.”

Colocando tudo isso na panela, juntamente com umas boas colheradas de alegria, buscamos construir felizes e nutritivas memórias alimentares em nossas crianças!

Profª Ana Carolina T. Meirelles

Contribuições da alimentação para o desenvolvimento do Pensar/Sentir/Querer