Vinicius Alves, 28/08/2025
“É possível imaginar o mundo sem crianças, tal como as reconhecemos ainda hoje?” (POSTMAN, 1999)
Essa frase está presente na lombada do livro “O Desaparecimento da Infância” do autor Neil Postman, que teve sua primeira versão escrita em 1982. Mais de quatro décadas atrás e está continua sendo uma pergunta que gera grandes reflexões nos dias atuais. Reflexões essas que, cada vez mais, chegam em níveis alarmantes. Afinal, como cada um de vocês, leitores, responderiam essa pergunta? É possível imaginar um mundo sem as crianças da forma que as percebemos hoje? Ou, para mudar um pouco a forma de olhar, você ainda vê nos dias de hoje as crianças como você foi na sua infância?
Um dos temas que atingiu as redes recentemente foi o da denúncia da adultização das crianças, tema essa que felizmente teve como porta voz um comunicador com grande alcance de público, mas, infelizmente, só ganhou devida atenção depois que foi escancarada da forma que foi. Aparentemente, nós, como adultos, deixamos de verdadeiramente prestar atenção naquilo que acontece a nossa volta todos os dias. Cada vez mais nossos sentidos estão sendo agredidos pelo nosso entorno, nos impedindo de ver, ouvir, tocar, experimentar o mundo à nossa volta.
Em meio a toda essa confusão da nossa percepção, uma parte da vida tem sido constantemente atacada, uma parte da vida que não possui ferramentas ou até mesmo capacidade humana para se defender. Dia após dias a infância tem sofrido ataques que os atingem de forma tão impactante que transformam seu desenvolvimento como um todo, chegando ao ponto em que crianças são utilizadas como objetos de renda utilizando a exposição das suas vidas, das suas intimidades, dos seus corpos em redes sociais. Redes sociais que, por sua vez, são direcionadas em sua maioria à outras crianças, gerando uma bola de neve de normalização da adultização das crianças.
Um outro lado ainda mais assustador é não só a permissão de tais conteúdos nessas redes, mas o incentivo algorítmico ao acesso desse tipo de conteúdo, algoritmo esse que detecta tal adultização/sexualização e direciona outros conteúdos como estes para quem tem interesse. E sabemos bem quem tem interesse…, não é esse o conteúdo que será abordado nesse texto, mas a denúncia se faz necessária.
A adultização, como podemos ver em um livro de 1982, ou então se olharmos o mundo a nossa volta, não é um tema novo, é um tema que vem crescendo e se desenvolvendo a muito tempo e que permeia as escolas, até mesmo (se não mais) de educação infantil.
Um tema que anda de mãos dadas com a adultização das crianças é o da aceleração da infância. Cada vez mais, em um ritmo alarmante, vemos jovens com crises de ansiedade, depressão, estresse e, cada vez mais isso está aparecendo ainda mais cedo. Crianças ansiosas deixaram de ser casos raros e estão se tornando cada vez mais comuns.
Ainda mais alarmante são os casos de suicídio. Segundo uma notícia do G1 (2024) em levantamento feito pela Fiocruz em 2022 (o mais recente até a data da notícia) entre 2002 e 2022 “[…] entre 2000 e 2022, foi registrado um aumento na proporção de suicídios em relação ao total de mortes em todos os grupos estudados. Porém, de acordo com os pesquisadores da Fiocruz, o aumento foi mais acentuado entre os mais jovens do que entre os adultos, sendo ainda mais expressivo entre as pessoas de 10 a 19 anos.” O estudo mostra que até 2019 a probabilidade era maior entre os adultos, se igualou em 2019 e desde então o grupo de indivíduos entre 10 e 19 anos superou as porcentagens, chegando, em 2022, a ter uma probabilidade 21% maior que tirar a própria vida do que jovens adultos (20 a 29 anos). Esse dado por si só já é extremamente impactante, então evitaremos falar de números totais, pois não há necessidade de chocar ainda mais.
O que precisamos levar desta triste realidade é a urgência com que precisamos confrontar essa aceleração da infância. Cada vez mais nossas crianças estão se deparando com situações e problemas do mundo adulto, deixando o que realmente importa para trás. Ser criança!

Na realidade escolar é comum vermos famílias de crianças em idade de educação infantil, até mesmo berçário, preocupadas com questões futuras como o vestibular, o mercado de trabalho, o uso das tecnologias etc. todas questões referentes ao mundo adulto, ou do jovem adulto no caso do vestibular, estão sendo pressionadas para serem inseridas no mundo infantil.
Educação infantil com carteira, caneta e papel onde as crianças “estudam” (no sentido conceitual adulto da palavra) para o quanto antes deixarem de serem crianças e rapidamente se tornarem “prontas” para a próxima etapa. Porém, contraditoriamente, esquecemos que o “pronto” muitas vezes não é perceptível de uma forma simples e que acelerar acaba não só dificultando o desenvolvimento como também impedindo por completo a conquista de certas capacidades essenciais para o ser humano que só podem ser conquistadas na janela de desenvolvimento da infância.
Há uma pergunta que precisa sempre ser feita quando pensamos em educação, mas que raramente é: de onde surge o conhecimento humano?
Por que cada um de nós vai atrás de saber sobre alguma coisa? O que nos motiva a dar o próximo passo em direção ao saber? A resposta é simples, mas profundamente complexa. O que nos coloca em movimento em direção a saber algo novo é nossa curiosidade, nossa vontade de saber (se atentem a essa palavrinha, “vontade”, pois ela será retomada por aqui). O conhecimento é fruto da curiosidade humana! A mais clássica delas sendo a descoberta do fogo, ou do uso dele. A famosa cena do raio que cai em uma árvore, fazendo seu tronco pegar fogo e nossos antepassados olhando, assustados, mas encantados por aquela centelha de possibilidades. E não tem nada que suprima mais a curiosidade e a vontade humana do que retirar do ser humano enquanto criança a possibilidade de se encantar com o mundo a sua volta.
A criança é um ser profundamente permeado de vontade, vontade essa que precisa, que exige entrar em ação com o auxílio de um ambiente que permita que essa vontade se manifeste. Imaginem o quanto de vontade não é necessária para o bebê se colocar de pé?! Levantar e cair, levantar e cair, levantar e cair repetidamente sem desistir da sua missão de se colocar de forma ereta perante o mundo. Sejamos sinceros, se dependesse da nossa vontade adulta para nos colocarmos de pé, com certeza andaríamos deitados. A vontade está presente em todo ser humano, mas, nos primeiros anos de vida, mas especificamente durante os sete primeiros anos de vida, a vontade trabalha de forma mais intensa, reinando sobre nossas outras funções.
Imaginem agora o quão tolhedor para a vontade é colocar a criança parada em uma carteira, exigindo dela que suprima sua vontade em benefício da abstração, da aceleração do intelecto. A ideia de incentivar o intelecto antes da hora já é danosa por si só, pois abandona o momento correto do desenvolvimento da vontade e acorda o intelecto antes deste estar maturado para ser utilizado da forma correta, mas para além disso, acelerar o intelecto é, de forma geral, contraprodutivo em todos os níveis. Acelerar o intelecto não faz com que o ser humano tenha um pensar mais ou melhor desenvolvido, mas sim acaba tendo o efeito contrário.
Acelerar um processo que ainda não está pronto para ser utilizado faz com que este atue de forma precária. Abstrair sem antes conhecer, vivenciar, experimentar de forma prática é tão complexo quanto sem sentido. É evidente o tanto de alunos do ensino fundamental que não compreendem as leis matemáticas pois as mesmas são entregues apenas como conceitos abstratos ao invés de refletirem a vida em si. Quando o aluno se depara com o problema real, como por exemplo a necessidade de dividir um bolo em pedaços iguais para os colegas, criar e abstrair essa vivência no papel e simbolizar tal vivência em uma fórmula simplesmente faz sentido. Viver experiências permite que, em seguida, criar o conceito simbólico seja o próximo passo natural a ser tomado.

Outra barreira é a formação biológica que ainda não se encontra pronta. Para o adulto não é visível a necessidade de a criança ter várias capacidades antes de estar pronta para, por exemplo, escrever. Segurar um lápis ou uma caneta é infinitamente mais complexo do que parece. O ajuste fino da mão para tal não é somente uma questão de treinar segurando o lápis. Fazer brincadeiras de dedinho que explorem as diferentes possibilidades dos dedos, desenhar com giz bloquinho em folhas grandes, fazer inúmeros desenhos de forma, fazer um tricô de dedo são todas vivências que caminham em direção à escrita e à outras inúmeras habilidades manuais e artísticas. Pular passos não acelera, mas sim fragiliza. Temos então uma infância desenvolvida sem interesse pelo mundo e com as capacidades fragilizadas devido a uma aceleração cada vez mais rápida no intuito de que nossas crianças deixem de ser crianças o quanto antes para poderem então se tornarem adultos… antes da hora.
E quais os resultados disso? Bom, os resultados já sabemos, é só olharmos a nossa volta.
Tornamos comum, desejável ter crianças que cada vez mais trazem traços e capacidades de adultos, desfilando-os quase como prêmios para os outros. Aclamamos tanto traços intelectuais como: “Minha criança já sabe escrever”, “minha criança já fala inglês”, “meu filho já sabe o nome de “n” capitais do mundo” quanto também traços físicos: “minha filha já é uma mocinha”, “olha como minha criança já sabe usar maquiagem” e por aí vai. Crescer virou vitória e permanecer criança, como deveria ser, se tornou sinal de atraso.
Que aprendizado para nós, adultos, será o dia em que tivermos a alegria de dizer: “estou aprendendo com meu filho a observar caramujos”, “que gostoso sentar com minha filha na varanda e assistir a chuva cair”, “que emocionante foi quando eu e minha criança escolhemos gotas na janela para ver qual iria escorrer mais rápido”, “que aventura foi apostar corrida de barco de papel na corredeira do riacho”. A infância passa rápido, é uma fase extremamente curta da vida e sabemos, como adultos, quão bom seria poder revivê-la, aproveitá-la nem que fosse um ano a mais. Mas, por outro lado, quando olhamos para nossos pequenos, para a infância encarnada, nosso desejo é que ela acelere, adultize o quanto antes.
Deixar a criança ser criança é ao mesmo tempo maravilhoso e egoísta pois, observando a criança ser ela mesma, aprendemos muito mais sobre nós mesmos.
Adultização não é momento, é processo, é criação social, é estimulação do ambiente. Desacelerar não é atraso, é respeito pelo desenvolvimento, é respeito pela vida.
Se voltarmos a nossa pergunta de abertura “É possível imaginar o mundo sem crianças, tal como as reconhecemos ainda hoje?” (POSTMAN, 1999) para mim, infelizmente sim. Não só é possível como já está acontecendo e em um ritmo assustadoramente rápido.
Postman chega em uma conclusão similar ao escrever o prefácio da edição de 1994 de seu livro. Neste ele escreve:
Se pelo menos algumas tendências para o desaparecimento da infância tivessem sido contidas ou revertidas desde que o livro foi escrito, eu estaria muito contente. Não traria vergonha alguma para mim ou para o livro dizer que algo que pensei que iria acontecer não aconteceu; que algo que eu sabia que estava acontecendo não está acontecendo mais.
[…] Minha releitura do livro, lamento dizer, não me leva a mudar nada de importante. O que acontecia então, acontece agora. Só que pior. (POSTMAN, 1999. p. 7-8)
Sejamos cada um de nós a mudança que o mundo precisa na valorização e no respeito da infância em seu tempo verdadeiramente necessário e essencial.
Referências Bibliográficas
ALMG, 2024. Casos de sofrimento mental entre jovens no Brasil preocupam especialistas – Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Disponível em: <https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Casos-de-sofrimento-mental-entre-jovens-no-Brasil-preocupam-especialistas/>.
G1, 2024. Suicídio entre adolescentes aumenta de forma mais acelerada do que nas demais faixas etárias, aponta Fiocruz. Disponível em: <https://g1.globo.com/saude/noticia/2024/09/19/risco-de-suicidio-entre-criancas-e-adolescentes-e-21percent-maior-do-que-entre-jovens-adultos-aponta-fiocruz.ghtml>.
POSTMAN, N. 1999. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Carvalho; José De Melo. 2. ed.

