Vinícius Alves. 03/09/2025
“Crianças são as mensagens vivas que enviamos a um tempo que não veremos.” (POSTMAN, 1982)
Essa é a primeira frase da introdução do livro O Desaparecimento da Infância do jornalista americano Neil Postman, frase essa que retrata poeticamente o que cada criança carrega dentro de si, mas, retrata ainda mais aquilo que nós, adultos enquanto indivíduos e sociedade entregamos às crianças para um futuro que, na maioria das vezes, não veremos.

A educação é algo profunda e intrinsecamente presente em nossa sociedade. Naturalmente enquanto observadores e “vivenciadores” do mundo aprendemos o tempo todo. Porém, quando pensamos na ideia de uma educação formal, em sua forma mais simples, existindo o encontro de duas pessoas essa educação já é possível e tão verdadeira quanto qualquer outra forma de educação formal. Um educando e um educado que, no devir dessa educação, constantemente trocam de papel, fazendo com que ambos assumam o papel de educador e de educando. O educador é egoísta no momento em que, ao ensinar, aprende, ao mesmo tempo em que é altruísta ao assumir que aquele ao qual ensina sabe coisas que ele mesmo não sabe.
Nessa troca constante o professor imprime parte de si no seu aluno e, levando para além da escola, nós todos, como adultos e sociedade, imprimimos em nossas crianças atos, pensamentos, sentimentos, emoções… cada impressão desabrochará em um ser humano que muitas vezes nunca mais veremos e em um futuro que, como todo futuro, sequer existe. E, mesmo com todo esse pensamento, ouvimos por aí pessoas dizendo que não carregam mais consigo a esperança.
O que melhor representa a esperança do que a escola? Ainda mais se olharmos para a educação infantil. Diferente da aquisição de um produto que em sua cadeia de produção e consumo oferece uma garantia física e concreta daquilo que está sendo adquirido, a educação não possui garantia nenhuma! Para alguns isso pode parecer um pouco assustador, afinal estamos em uma época em que confiança deixou de ser foco primário. O que antes era combinado com apertos de mão ou trocas orais agora carece de “n” confirmações escritas, digitalizadas, convencionadas e rastreadas para que tenhamos a sensação de segurança naquilo que adquirimos. Mas e a educação?
Assim como o campo das artes, quando falamos de educação não falamos de produtos. Não compramos algo, confiamos. Mas confiamos em que? Curiosamente… não sabemos ao certo. Confiamos em algo bom, em algo positivo para o desenvolvimento da criança que ali confiamos (desenvolvimento esse que muitas vezes sequer sabemos como e de que forma ocorre).
Hoje em dia há diversos índices, bases, documentos que apresentam aquilo que é desejável que as escolas ofereçam e promovam para as crianças nas diferentes etapas da vida. No Brasil há primeiramente a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) que, em suas próprias palavras “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”. Junto dessa Lei maior, há documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, por sua vez, apresenta um conjunto de normas orgânicas e progressivas de aprendizagem que toda criança deve desenvolver durante a educação básica. Outro documento famoso para quem estuda educação no Brasil são os Parâmetros Nacionais Curriculares, que precederam a BNCC com um conjunto flexível de diretrizes e referências para a qualidade da educação no Brasil. Esses documentos servem como um esqueleto da educação, apontando uma direção na qual as coisas precisam seguir.
Porém, vamos usar a 1ª competência geral da educação básica presente na BNCC como exemplo:
Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre os mundos físico, social, cultural e digital
para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e
colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
Amplo não? Imaginem vocês como pais chegando para matricular seus filhos em uma escola com a exigência de que seu filho irá aprender a utilizar conhecimentos historicamente construídos para que então ele seja capaz de continuar aprendendo para colaborar com uma sociedade justa, democrática e inclusiva. É uma exigência razoável, não? Afinal, é desejável e esperado que nossas crianças conquistem tais capacidades e com uma qualidade que lhe permitam serem justas, corretas, éticas etc., mas qual a garantia que temos?
Como já antes dito neste texto, escola não dá garantia, dá esperança! Não somos capazes de medir o quanto nossa esperança depositada na escola foi atingida, assim como ao assistir a uma peça de teatro. Posso sair descontente, provocado, feliz, surpreendido, mas como medir o que aconteceu? E para além de como medir, como saber o quanto disso surge da escola enquanto instituição? O quanto disso surge das pessoas que fazem parte dessa instituição? O quanto disso surge por quem eu sou? O quanto disso surge por expectativas sociais que possuímos quanto indivíduos? A complexidade daquilo que é produzido na educação é complexa ao ponto de não ser palpável, não ser mensurável.
As formas que usamos para medir o desenvolvimento educacional muitas vezes nos mostram muito pouco, isso quando não nos mostram nada. Fazer uma prova de matemática nos padrões tradicionais realmente nos mostra se aquele ser humano é capaz de entender, compreender e expressar o que se é esperado? Quantos de nós não respondemos questões do vestibular que, se preguntados hoje, não fazemos ideia de como responder? E, principalmente, como podemos, através de provas tradicionais, medir a qualidade daquilo que está sendo ensinado? Como medir justiça, ética, gentileza, fraternidade? Como medir o amor, força essa tão essencial e tão reprimida nos dias de hoje?
Educar não trata de aquisição, mas sim de esperança. E não só para as famílias, mas também para nós, profissionais da educação. O professor muitas vezes não acompanha a vida daquela criança que ele forma hoje. Há uma beleza na Pedagogia Waldorf que é a presença de um professor de classe que acompanha a turma durante os 9 anos do ensino fundamental, conhecendo profundamente cada um dos seus alunos em suas capacidades, dificuldades, necessidades, sonhos, habilidades e por aí vai. Essa é uma figura rara, que tem o desafio e o privilégio de acompanhar e se responsabilizar por um longo período pelo desenvolvimento de seus alunos, mas, mesmo assim, quando os alunos saem da escola, são muitos que, no decorrer da vida, deixamos de conhecer. Não sabemos o que irá florescer daquele aluno que formamos, mas temos esperança. Esperança de que fizemos nosso melhor para que, no seu caminho, eu tenha plantado as sementes necessárias para que esse ser humano de seus passos da melhor forma possível. Esperança…
Há uma máxima árabe que pinta com perfeição esse trabalho do professor:
“Era uma vez um ancião que plantava tâmaras no deserto. Um dia, enquanto estava concentrado em sua atividade, foi abordado por um jovem, que perguntou:
— Mas por que o senhor perde tempo plantando o que não vai colher?
O jovem sabia que as tamareiras levam entre 80 e 100 anos para produzir seus primeiros frutos. Aquele senhor não viveria para ver o resultado de seu trabalho.
O ancião então virou e respondeu assim:
— Meu bom jovem, se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras.”
Esperança… muito daquilo que plantamos na educação, senão tudo, não iremos colher. Essa é a beleza e o eterno mistério da educação. Mesmo na sociedade dos contratos, na sociedade onde a confiança é tolice, diariamente confiamos! Famílias confiam que fizeram a escolha certa para a educação de seus filhos, professores confiam que estão fazendo o seu melhor para seus alunos e finalmente as crianças, por sua vez, confiam naqueles que a educam. A esperança não está morta, muito pelo contrário! Pode até se esconder, pode até ser desacreditada em vários momentos da nossa vida, mas, enquanto educarmos, teremos esperança. Esperança essa que se imprime na mensagem ao futuro que não conhecemos, nossas crianças.

